Gastos sufocam emergentes e podem levar a crise fiscal
Área: Fiscal Publicado em 03/08/2020 | Atualizado em 23/10/2023
Foto: Divulgação Algumas das maiores economias em desenvolvimento do mundo enfrentarão uma crise fiscal nos próximos anos, a menos que consigam reverter os grandes aumentos dos gastos públicos promulgados em resposta à pandemia de covid-19, alertam analistas.
A desaceleração econômica provocada pela pandemia, combinada com o aumento dos gastos com saúde para conter a propagação do vírus, levou a uma escalada dos déficits públicos em muitos países. Eles terão de escolher entre o risco de distúrbios sociais em razão do corte nos gastos, ou negociar com os investidores a reestruturação de suas dívidas.
Em média, as economias emergentes e em desenvolvimento anunciaram pacotes de ajuda avaliados em 5,4% de seus PIBs, segundo dados do Banco Mundial. Em alguns países - incluindo Índia, Malásia, Polônia, Qatar, África do Sul e Tailândia - os gastos públicos relacionados à pandemia superaram 10% do PIB.
Os países dependentes do turismo e exportadores de commodities estão particularmente vulneráveis, segundo o Banco Mundial, que alerta que nas economias emergentes e em desenvolvimento as dívidas dos governos atingiram o recorde de 51% do PIB e muitos países que antes tinham superávits entraram no terreno dos déficits nos últimos anos, deixando um espaço limitado para mais gastos.
Gabriel Sterne, economista-chefe da consultoria Oxford Economics, disse: “Se a sua resposta [à pandemia] é mais gastos, você tem de financiar isso de alguma forma. Então você começa a exagerar os argumentos sobre a capacidade dos países de se financiarem”.
No início da pandemia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que os países emergentes e em desenvolvimento precisariam de um apoio fiscal de ao menos US$ 2,5 trilhões para atravessar a crise - em especial para gastos com saúde e proteção social.
Esse número agora é tido como amplamente subestimado: a previsão mais recente do FMI é de que a economia mundial sofrerá uma queda cumulativa de produção de US$ 12,5 trilhões em 2020 e 2021, e a maior parte do golpe será sentida pelos países em desenvolvimento.
Como resultado das tensões sobre as finanças públicas, até 37% dos bônus do índice referencial de dívida externa soberana de mercados emergentes compilado pelo JP Morgan poderão entrar em “default” no próximo ano ou pouco mais, segundo Adam Wolfe da Absolute Strategy Research (ASR).
Egito, Zâmbia e Gana são os mais vulneráveis segundo sua análise, enquanto economias maiores como África do Sul, Índia, Nigéria e Brasil também enfrentam níveis elevados de risco. Turquia, Indonésia e México não estão muito atrás.
Brasil e África do Sul terão neste ano, cada um, déficits orçamentários de mais de 15% do PIB, segundo a Oxford Economics. Além disso, a necessidade de refinanciar dívidas que vencerão pressionará suas necessidades de empréstimos para o ano para 25% do PIB, segundo alerta a consultoria.
William Jackson, economista da Capital Economics, diz que para manter o endividamento abaixo de 100% do PIB o Brasil precisaria de um aperto fiscal igual a 6% a 7% do PIB por ano, durante vários anos. Outros países, como a África do Sul e o México, enfrentam problemas parecidos, segundo ele.
“É difícil ver uma austeridade dessa escala ser politicamente palatável em qualquer época”, diz ele. “Um número extremamente grande de mercados emergentes enfrenta problemas muito graves.”
Até agora, muitos governos vêm conseguindo financiar suas dívidas em alta nos mercados de bônus, graças a um aumento da liquidez nos mercados financeiros globais e nos bolsos fundos dos investidores locais.
Os trilhões de dólares em estímulos injetados nos mercados financeiros pelos bancos centrais nas economias avançadas fluíram, em parte, para as economias emergentes, ajudando a reverter saídas de capitais maciças desencadeadas pelos estágios iniciais da crise.
Embora US$ 33,5 bilhões tenham saído dos mercados de bônus emergentes em março, quase US$ 50 bilhões voltaram desde então, segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF). Os governos das economias em desenvolvimento levantaram quase US$ 90 bilhões nos mercados internacionais desde o começo de abril.
Embora os fluxos de capital tenham ajudado a aliviar a situação financeira imediata dos países, também reduziram as pressões para se chegar a soluções de longo prazo, exacerbando ao mesmo tempo problemas futuros de orçamento ao aumentar os custos dos juros e pagamento das dívidas.
Phoenix Kalen, estrategista de mercados emergentes do Société Générale em Londres, diz: “Estamos adiando o problema do refinanciamento da dívida, que está aumentando dramaticamente... É muito difícil tentar entender o aumento extraordinário da deterioração fiscal. Nunca vimos nada nessa escala antes”.
O FMI e o Banco Mundial forneceram recursos emergenciais para ajudar os países mais pobres do mundo a enfrentar a crise, e os membros do G20 concordaram no início do ano em conceder a eles moratória no pagamento das dívidas.
Mas críticos afirmam que o foco nas dívidas dos países pobres desviou as atenções das necessidades fiscais dos países de renda média. Na reunião de cúpula do G20 na semana passada, os ministros das Finanças não fizeram nenhum grande progresso nas discussões sobre como proporcionar um alívio de dívida mais disseminado, apesar dos pedidos crescentes.
Wolfe da ASR diz: “Em muitos casos, a reestruturação não será suficiente, e os países precisarão do apoio de empréstimos oficiais. O tamanho do problema será na casa dos trilhões de dólares, enquanto o tamanho da resposta está na casa dos bilhões, e não parece haver um plano para se fazer mais”.
E alguns analistas alertaram que a escala do problema econômico para os países de renda média ainda não foi totalmente estimado.
“Estamos lutando para imaginar o que vai acontecer no ano que vem”, diz Richard Kozul-Wright, diretor de globalização e estratégias de desenvolvimento da Unctad, a agência de comércio e desenvolvimento da ONU. “Estamos bem menos otimistas com uma recuperação em forma de ‘V’ do que alguns que preveem isso. Para os países em desenvolvimento, o pior ainda está por vir.”
Fonte: Portal Valor Econômico NULL Fonte: NULL
A desaceleração econômica provocada pela pandemia, combinada com o aumento dos gastos com saúde para conter a propagação do vírus, levou a uma escalada dos déficits públicos em muitos países. Eles terão de escolher entre o risco de distúrbios sociais em razão do corte nos gastos, ou negociar com os investidores a reestruturação de suas dívidas.
Em média, as economias emergentes e em desenvolvimento anunciaram pacotes de ajuda avaliados em 5,4% de seus PIBs, segundo dados do Banco Mundial. Em alguns países - incluindo Índia, Malásia, Polônia, Qatar, África do Sul e Tailândia - os gastos públicos relacionados à pandemia superaram 10% do PIB.
Os países dependentes do turismo e exportadores de commodities estão particularmente vulneráveis, segundo o Banco Mundial, que alerta que nas economias emergentes e em desenvolvimento as dívidas dos governos atingiram o recorde de 51% do PIB e muitos países que antes tinham superávits entraram no terreno dos déficits nos últimos anos, deixando um espaço limitado para mais gastos.
Gabriel Sterne, economista-chefe da consultoria Oxford Economics, disse: “Se a sua resposta [à pandemia] é mais gastos, você tem de financiar isso de alguma forma. Então você começa a exagerar os argumentos sobre a capacidade dos países de se financiarem”.
No início da pandemia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que os países emergentes e em desenvolvimento precisariam de um apoio fiscal de ao menos US$ 2,5 trilhões para atravessar a crise - em especial para gastos com saúde e proteção social.
Esse número agora é tido como amplamente subestimado: a previsão mais recente do FMI é de que a economia mundial sofrerá uma queda cumulativa de produção de US$ 12,5 trilhões em 2020 e 2021, e a maior parte do golpe será sentida pelos países em desenvolvimento.
Como resultado das tensões sobre as finanças públicas, até 37% dos bônus do índice referencial de dívida externa soberana de mercados emergentes compilado pelo JP Morgan poderão entrar em “default” no próximo ano ou pouco mais, segundo Adam Wolfe da Absolute Strategy Research (ASR).
Egito, Zâmbia e Gana são os mais vulneráveis segundo sua análise, enquanto economias maiores como África do Sul, Índia, Nigéria e Brasil também enfrentam níveis elevados de risco. Turquia, Indonésia e México não estão muito atrás.
Brasil e África do Sul terão neste ano, cada um, déficits orçamentários de mais de 15% do PIB, segundo a Oxford Economics. Além disso, a necessidade de refinanciar dívidas que vencerão pressionará suas necessidades de empréstimos para o ano para 25% do PIB, segundo alerta a consultoria.
William Jackson, economista da Capital Economics, diz que para manter o endividamento abaixo de 100% do PIB o Brasil precisaria de um aperto fiscal igual a 6% a 7% do PIB por ano, durante vários anos. Outros países, como a África do Sul e o México, enfrentam problemas parecidos, segundo ele.
“É difícil ver uma austeridade dessa escala ser politicamente palatável em qualquer época”, diz ele. “Um número extremamente grande de mercados emergentes enfrenta problemas muito graves.”
Até agora, muitos governos vêm conseguindo financiar suas dívidas em alta nos mercados de bônus, graças a um aumento da liquidez nos mercados financeiros globais e nos bolsos fundos dos investidores locais.
Os trilhões de dólares em estímulos injetados nos mercados financeiros pelos bancos centrais nas economias avançadas fluíram, em parte, para as economias emergentes, ajudando a reverter saídas de capitais maciças desencadeadas pelos estágios iniciais da crise.
Embora US$ 33,5 bilhões tenham saído dos mercados de bônus emergentes em março, quase US$ 50 bilhões voltaram desde então, segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF). Os governos das economias em desenvolvimento levantaram quase US$ 90 bilhões nos mercados internacionais desde o começo de abril.
Embora os fluxos de capital tenham ajudado a aliviar a situação financeira imediata dos países, também reduziram as pressões para se chegar a soluções de longo prazo, exacerbando ao mesmo tempo problemas futuros de orçamento ao aumentar os custos dos juros e pagamento das dívidas.
Phoenix Kalen, estrategista de mercados emergentes do Société Générale em Londres, diz: “Estamos adiando o problema do refinanciamento da dívida, que está aumentando dramaticamente... É muito difícil tentar entender o aumento extraordinário da deterioração fiscal. Nunca vimos nada nessa escala antes”.
O FMI e o Banco Mundial forneceram recursos emergenciais para ajudar os países mais pobres do mundo a enfrentar a crise, e os membros do G20 concordaram no início do ano em conceder a eles moratória no pagamento das dívidas.
Mas críticos afirmam que o foco nas dívidas dos países pobres desviou as atenções das necessidades fiscais dos países de renda média. Na reunião de cúpula do G20 na semana passada, os ministros das Finanças não fizeram nenhum grande progresso nas discussões sobre como proporcionar um alívio de dívida mais disseminado, apesar dos pedidos crescentes.
Wolfe da ASR diz: “Em muitos casos, a reestruturação não será suficiente, e os países precisarão do apoio de empréstimos oficiais. O tamanho do problema será na casa dos trilhões de dólares, enquanto o tamanho da resposta está na casa dos bilhões, e não parece haver um plano para se fazer mais”.
E alguns analistas alertaram que a escala do problema econômico para os países de renda média ainda não foi totalmente estimado.
“Estamos lutando para imaginar o que vai acontecer no ano que vem”, diz Richard Kozul-Wright, diretor de globalização e estratégias de desenvolvimento da Unctad, a agência de comércio e desenvolvimento da ONU. “Estamos bem menos otimistas com uma recuperação em forma de ‘V’ do que alguns que preveem isso. Para os países em desenvolvimento, o pior ainda está por vir.”
Fonte: Portal Valor Econômico NULL Fonte: NULL