Split payment e reforma tributária: desafios para o caixa e valuation das empresas
Área: Fiscal Publicado em 26/09/2025Split payment e reforma tributária: desafios para o caixa e valuation das empresas
O Brasil conviveu por décadas com um sistema tributário caótico, que mais parecia um labirinto de sobrevivência do que um conjunto organizado de regras. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), desde 1988 foram editadas mais de 460 mil normas relacionadas a tributos.
Essa avalanche de leis e regulamentações produziu um ambiente sufocante, marcado pela complexidade, insegurança jurídica e custos elevados para o cumprimento das obrigações fiscais.
Cada estado criava suas próprias regras, cada município adicionava suas particularidades e, no fim, o contribuinte se via preso a uma “colcha de retalhos” de difícil compreensão.
Essa fragmentação, além de prejudicar a competitividade, também alimentava disputas judiciais intermináveis e minava a previsibilidade necessária para investimentos.
O marco da reforma tributária
A promulgação da Emenda Constitucional nº 132/2023 e a posterior regulamentação pela Lei Complementar nº 214/2025 representam um marco na história tributária brasileira. Pela primeira vez, o país adota um IVA dual:
IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), compartilhado entre estados e municípios.
CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), de competência federal.
Esse novo desenho substitui o conjunto de tributos ICMS, ISS, IPI, PIS e COFINS por um sistema unificado, alinhado ao modelo já adotado por mais de 170 países.
Promessas do novo sistema
Entre os principais avanços prometidos pela reforma, destacam-se:
Fim da cumulatividade: evita que o imposto seja cobrado várias vezes ao longo da cadeia de produção e consumo.
Crédito amplo: a lógica de “tudo gera crédito” se aplica, salvo exceções específicas.
Princípio do destino: a tributação ocorre no local do consumo, e não no local de origem da mercadoria ou serviço.
Na teoria, trata-se de uma mudança que pode aumentar a competitividade, simplificar processos e atrair investimentos. Na prática, será um teste de adaptação para empresas de todos os portes.
Split payment: o novo teste de maturidade do caixa
Apesar de toda a transformação estrutural, a mudança mais sensível para o dia a dia das empresas não está nas alíquotas ou na base de cálculo, mas sim na forma como o dinheiro entra no caixa: o split payment.
Como funcionava antes
Até então, as empresas recebiam o valor integral de suas vendas, utilizavam esses recursos para capital de giro, honravam compromissos operacionais e, somente no vencimento da obrigação tributária, recolhiam o imposto devido.
Essa “janela de fôlego” era fundamental para setores de margens apertadas, permitindo flexibilidade na gestão financeira.
O que muda agora
Com o split payment, essa dinâmica se altera radicalmente. No momento da venda, o sistema separa automaticamente a parcela correspondente ao IBS e à CBS, enviando-a diretamente ao fisco. A empresa recebe apenas o valor líquido, já descontado dos tributos.
Impactos imediatos incluem:
Redução do capital de giro: setores como comércio varejista e construção civil, que dependem de fluxo contínuo para operar, sentirão o impacto de forma mais intensa.
Maior previsibilidade para o governo: a arrecadação passa a ser imediata, reduzindo o risco de inadimplência e sonegação.
Necessidade de gestão mais precisa: estoques, prazos de entrega e contratos precisarão ser revisados para evitar desequilíbrios.
A LC 214/25 prevê cortes proporcionais no início para mitigar choques bruscos, mas o recado é claro: improviso na gestão financeira não terá espaço.
Bernard Appy e a base tecnológica
Bernard Appy, um dos principais idealizadores da reforma, já havia destacado que o Brasil tem infraestrutura tecnológica para o split payment, citando o Pix, as notas fiscais eletrônicas e a integração bancária. O desafio, portanto, é de gestão e adaptação, e não de viabilidade técnica.
Do inimigo ao aliado: a visão estratégica do split payment
No curto prazo, o split payment será visto por muitos empresários como um inimigo do fluxo de caixa. Contudo, sob uma ótica de longo prazo, pode se tornar um diferencial competitivo.
Empresas que se adaptarem rapidamente, implementando compliance fiscal robusto e processos automatizados, terão ganhos de credibilidade e previsibilidade.
Já aquelas que demorarem a reagir correm risco de asfixia financeira e perda de competitividade.
Impactos no valuation das empresas
A nova lógica tributária altera também a forma como investidores e analistas avaliam o valor de uma empresa. O fluxo de caixa, que já era um indicador essencial, ganha ainda mais peso.
A Febraban projeta que a previsibilidade financeira das empresas pode cair até 15% no primeiro ano da mudança. Isso exige reforço no capital de giro, renegociação de prazos com fornecedores e ajustes estratégicos.
Novas variáveis no DCF
Nos modelos de Discounted Cash Flow (DCF), os analistas terão de incorporar fatores como:
Tempo de recuperação de créditos tributários.
Resiliência do fluxo de caixa com o split payment.
Exposição ao IBS e à CBS em setores de alta tributação.
Capacidade de absorver impactos sem perda de margem.
Além disso, como IBS e CBS serão cobrados “por fora” do preço, as margens brutas e o EBITDA passarão a refletir de forma mais fiel a eficiência operacional. Isso permitirá diferenciar empresas realmente bem geridas de outras que dependiam de manobras contábeis para aparentar saúde financeira.
Desafios e oportunidades para diferentes setores
Alguns setores sentirão os efeitos de forma mais intensa:
Comércio: margens apertadas e alto volume de transações.
Construção civil: ciclos longos de pagamento e dependência de insumos.
Serviços: adaptação às novas bases de cálculo e regras de crédito.
Por outro lado, empresas com governança sólida, gestão integrada e tecnologia aplicada à área fiscal poderão usar a reforma como vantagem competitiva, atraindo investidores e clientes.
A transição e o aprendizado coletivo
O governo prevê um período de adaptação gradual, mas a transição não será isenta de conflitos. Dúvidas sobre alíquotas, critérios de crédito e integração de sistemas tendem a gerar ajustes e discussões jurídicas.
Nesse cenário, educação corporativa será fundamental: treinamentos internos, parcerias com consultorias e investimento em softwares de gestão fiscal devem estar no topo da lista de prioridades.
Conclusão: um divisor de águas
O Brasil deixa para trás o caos normativo e dá um passo para integrar-se ao padrão global de tributação baseada no valor agregado. No entanto, o ingresso nesse “clube” vem com exigências altas: capital de giro robusto, disciplina operacional e transparência.
O split payment é mais que um detalhe técnico: é um divisor de águas que pode determinar quem vai prosperar e quem será engolido pelas mudanças. Empresas preparadas transformarão a reforma em vantagem competitiva; as despreparadas verão seu valor encolher diante dos olhos do mercado.
Fonte: Seu Crédito Digital