MEI e mercado imobiliário impulsionam formalização de marceneiros

Área: Contábil Publicado em 18/03/2026

Levantamento do Sebrae-SP mostra que o número de MEIs atuando como marceneiros cresceu 8,6% nos últimos cinco anos e o de carpinteiros aumentou 32,2%

Ao analisar números e tendências, pode-se dizer que o setor de marcenaria e carpintaria vive um bom momento no estado de São Paulo. O aumento expressivo de MEIs (microempreendedores individuais) atuando na área, segundo o Sebrae-SP, indica mais do que a migração da informalidade para a formalidade; o movimento parece refletir também uma adaptação às novas exigências do mercado B2B e ao comportamento de consumo de um público mais jovem, composto principalmente por Millennials e pela Geração Z. 

Levantamento do Sebrae-SP, com dados da Receita Federal, mostrou que o número de carpinteiros no estado de São Paulo aumentou 32,2% entre 2021 e 2025, enquanto o de marceneiros cresceu 8,6% no período. Em 2021, o estado de São Paulo contabilizava pouco mais de 3,3 mil carpinteiros formalizados como MEI. Ao final de 2025, o número ultrapassou os 4,4 mil. Entre os municípios com maior número de optantes estão São Paulo, com 630, Campinas (152), São José dos Campos (93), Campos do Jordão (83) e Guarujá (79).

Entre os marceneiros, o número passou de 22,3 mil MEIs em 2021 para 24,8 mil em 2025. São Paulo lidera o ranking, com 7,4 mil, seguido por Guarulhos (774), Campinas (643), São Bernardo do Campo (538) e Santo André (485).

Diferentemente de outros setores em que o MEI pode ser uma alternativa de subsistência, a consultora de negócios do Sebrae-SP, Sandra Fiorentini, explica que na marcenaria ele se tornou a porta de entrada para o mercado ao eliminar possíveis barreiras de contratação. Como empresas e condomínios raramente contratam prestadores como Pessoa Física devido aos riscos tributários e trabalhistas, o MEI surge como um facilitador, permitindo ao marceneiro a emissão de nota fiscal, essencial para parcerias com construtoras e escritórios de arquitetura, mudando o patamar do profissional de "faz-tudo" para "parceiro de negócios".

É o caso de Felipe Mazuquelli, 38 anos. Marceneiro desde 2005, ele aprendeu o ofício com o pai, com quem trabalhou como funcionário por 15 anos. Com as dificuldades da pandemia, a estrutura do negócio familiar mudou e seu pai deixou de ter funcionários. Poucos meses depois, em 2022, decidiu abrir o próprio MEI. Hoje, ele atua como um parceiro terceirizado do pai em São Mateus, na Zona Leste da capital paulista, pagando para usar a estrutura da oficina original enquanto constrói sua própria carteira.

"O que me motivou a formalizar foi a emissão de notas, que me tirava do jogo, além do direito aos benefícios do INSS", conta.

Outra âncora desse mercado, segundo Sandra, seria o fenômeno dos studios. Ela lembra que o crescimento real do setor está ancorado na explosão imobiliária de unidades compactas de 25 a 50 metros quadrados. E em apartamentos de metragem reduzida, o móvel vendido por grandes redes muitas vezes não se encaixa ou desperdiça espaços vitais, nos quais o marceneiro entra como um solucionador. Essa necessidade do "sob medida", em que se torna possível aproveitar vãos, criar móveis multifuncionais (camas retráteis, bancadas de trabalho integradas) e otimizar cada parede, virou o nicho de maior demanda, de acordo com a consultora.

Mazuquelli sente essa demanda na prática - a maior parte de sua procura vem de moradores de apartamentos de até 45 metros quadrados, em que a cozinha entra como prioridade.

"Dificilmente faço o apartamento todo de uma vez; as famílias vão fazendo aos poucos. Um ambiente sozinho costuma custar cerca de R$ 10 mil", explica o marceneiro, que viu o volume de orçamentos crescer 30% nos últimos três anos.

Outro ponto levantado por Sandra é o crescimento de aluguéis de unidades menores, atingindo a casa dos R$ 4,5 mil em áreas próximas ao metrô, onde investidores buscam por uma mobília estratégica, ou seja, um apartamento com o mínimo necessário e o máximo de estética para valorizar o tíquete da locação, especialmente antes das mudanças tributárias previstas para 2027.

Mesmo com o arrefecimento do home office, Sandra também aponta que o modelo híbrido consolidou a busca por conforto. Dados do setor indicam que o consumidor de 2026 não quer apenas uma "mesa de computador", mas ambientes que integrem lazer e ergonomia. Pensando em nichos, ela cita que, em São Paulo, o destaque vai para projetos de varandas gourmet integradas e home offices customizados. 

Sandra lembra também que muitas empresas têm oferecido auxílio-montagem para garantir a saúde laboral do funcionário em casa, o que aquece a demanda por cadeiras ergonômicas e bancadas sob medida. Para competir com as grandes lojas de planejados, Sandra argumenta que a pequena marcenaria precisa profissionalizar a ponta final: o atendimento e a presença digital.

"O Google Meu Negócio e provas sociais sustentam esse mercado e são essenciais para o ranqueamento orgânico. O marceneiro precisa ser encontrado por quem busca "marcenaria perto de mim".

Fotos reais de obras finalizadas e depoimentos de clientes são mais valiosos do que catálogos profissionais, ela aponta. Pensando em sustentabilidade, Sandra destaca que a implementação da rastreabilidade da madeira e o descarte correto de serragem e retalhos não são apenas éticos, mas exigências crescentes de clientes de alto padrão.

Mazuquelli diz seguir esse caminho: utiliza consultorias do Sebrae para gerir o negócio e planeja o próximo passo. Com um investimento estimado em R$ 25 mil, ele pretende alugar um espaço próprio e adquirir máquinas essenciais para ganhar total independência.

Para os profissionais que buscam modernizar suas oficinas, Sandra sinaliza que o ecossistema de crédito em São Paulo oferece microcrédito assistido (via Sebrae) e uma consultoria para calcular custos fixos e variáveis, garantindo que o empréstimo não vire uma dívida impagável. Há também linhas com juros subsidiados para aquisição de máquinas e capital de giro.

Por fim, ela destaca que, enquanto 90% das grandes lojas focam em módulos padronizados, o pequeno marceneiro ganha no detalhe, na montagem artesanal e na capacidade de resolver problemas arquitetônicos que as máquinas industriais ignoram. 

 

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Fonte: Diário do Comércio