A Reforma Tributária está criando uma nova elite de profissionais e os salários já começaram a reagir

Área: Fiscal Publicado em 26/08/2026

A Reforma Tributária está criando uma nova elite de profissionais e os salários já começaram a reagir

Nos últimos meses, tenho percebido uma distorção cada vez mais evidente nos processos seletivos que envolvem profissionais das áreas fiscal, tributária, contábil e jurídica. Vagas que anteriormente conseguiam atrair candidatos dentro de uma faixa salarial relativamente previsível passaram a exigir propostas maiores, processos seletivos mais rápidos e negociações mais agressivas. Em alguns casos, o candidato recebe mais de uma oferta antes mesmo de concluir todas as etapas da seleção.

Essa percepção poderia ser apenas um recorte dos processos que acompanho. No entanto, quando analisamos os guias salariais, as pesquisas de contratação e o cronograma de implantação da Reforma Tributária, fica evidente que estamos diante de uma transformação mais profunda. A reforma não está modificando apenas impostos. Ela está criando um ciclo de valorização de profissionais capazes de conectar legislação, contabilidade, tecnologia, processos e estratégia empresarial.

Segundo pesquisa da Robert Half, 53% das empresas brasileiras estimavam contratar pelo menos três profissionais adicionais em razão da Reforma Tributária. O dado chama atenção porque não estamos falando somente de grandes grupos ou escritórios especializados. A adequação afeta indústrias, varejistas, prestadores de serviços, empresas de tecnologia, transportadoras, instituições financeiras, escritórios contábeis e praticamente qualquer organização que emita documentos fiscais, compre, venda, precifique ou administre créditos tributários.

O Guia Salarial 2026 da mesma consultoria reforça esse movimento. Na área de Finanças e Contabilidade, 48% dos gestores de contratação afirmam estar dispostos a pagar salários maiores a candidatos com conhecimentos especializados. Entre as competências mencionadas estão justamente o domínio da Reforma Tributária, a análise de dados, a inteligência artificial generativa, a modelagem financeira, a análise de negócios e o uso avançado de ferramentas tecnológicas.

No Jurídico, o comportamento é semelhante. Cerca de 44% dos gestores afirmam aceitar pagar mais por profissionais com certificações ou conhecimentos especializados. A Reforma Tributária, o uso de inteligência artificial, a privacidade de dados, a negociação e a visão de negócios aparecem entre os conhecimentos valorizados. Além disso, 26% das empresas planejam ampliar suas equipes jurídicas, com Direito Tributário entre as áreas prioritárias.

Os números salariais ajudam a dimensionar o fenômeno. Em 2025, o Guia Salarial da Robert Half projetava, para um analista contábil ou fiscal pleno em empresa de pequeno ou médio porte, uma faixa de R$ 5.120 a R$ 7.310 mensais, com valor intermediário de R$ 6 mil. Para 2026, a faixa nacional passou para R$ 5.400 a R$ 7.750, com valor intermediário de R$ 6.400. Isso representa aumento de aproximadamente 6,7% no ponto central da faixa em apenas um ano.

Nas grandes empresas, o movimento é ainda mais evidente. O analista contábil ou fiscal pleno tinha, em 2025, referência intermediária de R$ 7 mil. Em 2026, essa referência chegou a R$ 7.800, crescimento nominal de aproximadamente 11,4%. O limite superior da faixa saltou de R$ 7.860 para R$ 9.200, uma elevação de cerca de 17%.

Esse dado é particularmente relevante porque a inflação, sozinha, não explica toda a abertura da parte superior da faixa. O que parece estar acontecendo é uma diferenciação cada vez maior entre o profissional que executa rotinas fiscais tradicionais e aquele que domina legislação, sistemas, dados, impactos financeiros e implementação da reforma.

Em 2026, um analista contábil ou fiscal júnior, ainda no início da carreira, pode encontrar referências entre R$ 4 mil e R$ 5.700 em empresas de pequeno e médio porte. Nas grandes organizações, a faixa indicada vai de R$ 4.700 a R$ 6.500. Para o nível pleno, os valores podem chegar a R$ 9.200, enquanto um analista sênior de grande empresa aparece em uma faixa entre R$ 9.550 e R$ 12.050.

Nos cargos de liderança, a valorização torna-se ainda mais clara. Um coordenador contábil ou fiscal de uma grande empresa pode receber entre R$ 15 mil e R$ 21.700. Para gerentes contábeis ou fiscais, a referência nacional varia de R$ 21.250 a R$ 32.350. Em São Paulo, a faixa superior pode chegar a aproximadamente R$ 35 mil mensais.

No Direito Tributário, as remunerações também evidenciam a escassez de conhecimento especializado. Em escritórios de pequeno porte, um advogado consultivo tributário júnior aparece no Guia Salarial 2026 com valores entre R$ 6.300 e R$ 9.300. No nível pleno, a faixa vai de R$ 9.250 a R$ 13.600. Um advogado consultivo tributário sênior pode receber entre R$ 13.050 e R$ 19.200.

Em escritórios de médio porte e boutiques jurídicas, um advogado consultivo tributário sênior pode alcançar entre R$ 14.500 e R$ 21.350 mensais. O valor intermediário é de R$ 17.700. Já um profissional pleno aparece entre R$ 9.750 e R$ 14.400, enquanto um júnior pode iniciar entre R$ 6.150 e R$ 9.150.

Esses números mostram que o Direito Tributário já oferece remunerações de entrada superiores às encontradas em diversas áreas tradicionais da advocacia. Em escritórios pequenos, por exemplo, o valor intermediário de um advogado consultivo tributário júnior é de R$ 7.750, enquanto o de um advogado trabalhista contencioso júnior é de R$ 5.400. A diferença é de aproximadamente 43,5%.

No nível sênior, a referência intermediária de R$ 15.900 para o consultivo tributário supera em cerca de 67% os R$ 9.500 atribuídos ao trabalhista contencioso sênior no mesmo porte de escritório. Embora sejam áreas distintas, com estruturas de mercado diferentes, a comparação demonstra o prêmio que o conhecimento tributário estratégico já consegue capturar.

A pergunta natural é se esse crescimento será momentâneo ou se continuará nos próximos anos.

Tudo indica que o movimento não termina em 2026. A transição do sistema tributário foi desenhada para durar até 2033. O ano de 2026 é apenas a fase inicial de testes da CBS e do IBS. Em 2027, entram mudanças relevantes, como a extinção do PIS e da Cofins, a implementação da CBS e o início efetivo do Imposto Seletivo. Entre 2029 e 2032 ocorrerá a substituição gradual do ICMS e do ISS pelo IBS. Apenas em 2033 o novo modelo deverá estar integralmente vigente.

Isso significa que as empresas conviverão durante anos com duas lógicas tributárias, adaptações sucessivas, novos documentos fiscais, mudanças de alíquotas, revisão de créditos, reestruturação de contratos e ajustes nos sistemas de gestão. O discurso de simplificação pode fazer sentido no longo prazo, mas, durante a transição, a complexidade operacional tende a aumentar.

Em julho de 2026, a Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS ainda trabalhavam na definição do cronograma de obrigatoriedade dos documentos fiscais eletrônicos com destaque da CBS e do IBS. A própria necessidade de novos leiautes técnicos, períodos de adaptação e programas de autorregularização mostra que a reforma será implementada por etapas e exigirá acompanhamento permanente de profissionais fiscais, contábeis e desenvolvedores de sistemas.

Por essa razão, minha leitura é que o mercado deverá atravessar pelo menos três ondas de valorização.

A primeira onda já está acontecendo e envolve diagnóstico, estudo da legislação, formação das equipes e contratação dos primeiros especialistas. Ela deve permanecer forte entre 2026 e 2027, quando as empresas precisarão adaptar sistemas, documentos fiscais, processos e cadastros.

A segunda onda tende a ocorrer entre 2028 e 2030, quando os impactos sobre precificação, fluxo de caixa, contratos, créditos tributários, margens e cadeias de fornecimento ficarão mais visíveis. Nesse período, a procura deve deixar de ser apenas por profissionais de conformidade e passar a incluir especialistas capazes de transformar a tributação em decisão estratégica.

A terceira onda deverá acontecer entre 2031 e 2033, durante a consolidação do novo modelo e a redução progressiva dos tributos substituídos. É provável que o perfil mais valorizado nessa etapa seja o profissional que tenha acumulado experiência prática durante toda a transição.

Não existe, até o momento, uma projeção oficial dizendo que os salários tributários crescerão um percentual específico até 2033. Qualquer número apresentado como certeza seria especulativo. Entretanto, a comparação entre os guias de 2025 e 2026 já mostra crescimento de aproximadamente 6,7% no valor intermediário de analistas plenos de empresas menores e de 11,4% nas grandes empresas, com expansão de até 17% na parte superior de algumas faixas.

Com base nesses dados, na dificuldade de contratação e na extensão do cronograma, considero razoável trabalhar com um cenário analítico de valorização nominal entre 6% e 12% ao ano para posições fiscais e tributárias de média experiência nos períodos de maior demanda. Para perfis realmente escassos — profissionais que combinem Reforma Tributária, ERP, dados, contabilidade, precificação e visão de negócios — o prêmio de contratação pode superar essa média e chegar a uma diferença de 10% a 20% em relação ao profissional generalista.

Essa estimativa não deve ser entendida como previsão garantida para todos os cargos. A valorização não será uniforme. Funções essencialmente operacionais podem sofrer automação e ter reajustes menores. Já os especialistas capazes de interpretar regras, parametrizar sistemas, identificar impactos financeiros e orientar a estratégia empresarial tendem a capturar a maior parte do crescimento.

É justamente nesse ponto que a Reforma Tributária encontra a inteligência artificial.

A IA não elimina a necessidade do conhecimento tributário. Ela altera o tipo de conhecimento valorizado. Rotinas como conferência de documentos, classificação inicial, conciliações e levantamento de inconsistências poderão ser cada vez mais automatizadas. Entretanto, a decisão sobre o que fazer com essas informações continuará exigindo julgamento, responsabilidade técnica e compreensão do negócio.

O LinkedIn identificou a alfabetização em inteligência artificial como a habilidade que mais cresce no Brasil. A plataforma estima ainda que, entre 2015 e 2030, aproximadamente 70% das competências utilizadas na maioria dos empregos serão modificadas, tendo a IA como um dos principais catalisadores. Curiosamente, “política comercial” também aparece entre as cinco habilidades que mais crescem no Brasil, indicando que tecnologia, regulação e estratégia estão se aproximando.

A Robert Half chegou a uma conclusão semelhante. Na área de Tecnologia, 48% dos gestores estão dispostos a pagar mais por profissionais especializados. Inteligência artificial, engenharia de dados, cibersegurança e desenvolvimento com IA estão entre os conhecimentos mais valorizados. A consultoria informa ainda que 44% das empresas pretendem ampliar suas equipes tecnológicas em 2026.

Portanto, os maiores salários não estarão necessariamente no profissional tributário ou no profissional de inteligência artificial isoladamente. O maior prêmio deverá aparecer na interseção entre os dois mundos.

Um contador que conhece tributos, mas não compreende sistemas, pode ficar limitado à interpretação da norma. Um desenvolvedor que conhece tecnologia, mas não entende a lógica fiscal, pode criar uma solução tecnicamente eficiente e tributariamente inadequada. Já o profissional capaz de traduzir legislação em regras de sistema, indicadores, simulações de margem e decisões empresariais será muito mais difícil de substituir.

É por isso que essa transformação também representa uma oportunidade extraordinária para quem está iniciando a carreira. Um jovem que entrar agora em Contabilidade, Direito, Administração, Economia ou Tecnologia e se especializar na integração entre Reforma Tributária, dados, ERP e inteligência artificial poderá chegar a 2033 com sete anos de experiência prática em uma mudança histórica.

Esse profissional não será apenas alguém que estudou a reforma. Será alguém que viveu sua implementação.

Para as empresas, a mensagem é igualmente importante. Esperar até que a obrigação se torne urgente para contratar tende a aumentar o custo. Quando diversas organizações procuram simultaneamente os mesmos especialistas, os salários sobem, os processos seletivos ficam mais rápidos e os profissionais passam a escolher as melhores propostas.

As empresas que quiserem reduzir essa dependência precisarão formar pessoas internamente. Isso significa mapear os profissionais contábeis e fiscais com maior potencial, criar trilhas de aprendizagem, aproximar as equipes de tecnologia e finanças, contratar formação especializada e permitir que pessoas mais jovens participem dos projetos de transição.

Durante muito tempo, a área fiscal foi vista por algumas organizações como um setor responsável por calcular impostos e cumprir obrigações. A Reforma Tributária está obrigando as empresas a reconhecerem que tributação interfere diretamente em preço, margem, competitividade, investimento, tecnologia e estratégia.

O salário está subindo porque o valor atribuído ao conhecimento também está mudando.

Na minha percepção, estamos apenas no início desse ciclo. O superaquecimento deve continuar, com intensidades diferentes, pelo menos até 2033. Os picos provavelmente ocorrerão nos momentos em que novas obrigações entrarem em vigor e quando as empresas perceberem, na prática, que seus sistemas, contratos, preços e processos não estão preparados.

A Reforma Tributária não está criando somente uma nova legislação. Ela está criando uma nova categoria de profissionais estratégicos.

E, nos próximos anos, a diferença salarial não estará apenas entre quem conhece ou não conhece tributação. Estará entre quem consegue repetir a lei e quem consegue traduzir essa lei em decisões capazes de proteger margem, reduzir riscos e sustentar o futuro da empresa.

Fonte: gmconline.com.br