Alta de alimento “mascara” inflação baixa em serviços
Área: Fiscal Publicado em 27/01/2021
Foto: Divulgação Em grande parte influenciado pelos alimentos, o estouro da meta de inflação em 2020 “escondeu” um comportamento atipicamente benigno dos preços do setor da economia mais afetado pela pandemia. Os serviços, que figuraram como principal pressão inflacionária no começo da última década, subiram apenas 1,73% no ano - a menor alta desde 1999, quando o grupo aumentou 1,35%.
Responsável por cerca de 35% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o conjunto que reúne itens como cabeleireiro, aluguel e empregada doméstica chegou a avançar 9% em 2011. À época, o segmento se beneficiava de uma economia ainda aquecida, com expansão da renda e da classe média, que começou a dedicar maior parte do orçamento para gastos como serviços pessoais e lazer.
Nos anos seguintes, a inflação de serviços se manteve em patamar elevado, rodando acima de 8% até 2015, quando a economia já estava em recessão. A partir de então, houve uma lenta trajetória de desaceleração, que culminou com alta de 3,5% em 2019. Segundo especialistas, este deve ser “o novo normal” para a variação dos preços no setor, que tende a voltar para nível mais perto da meta de 3,75% em 2021, refletindo a reabertura gradual das atividades e o processo de vacinação.
Economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otávio de Souza Leal afirma que o comportamento do consumidor ao longo da pandemia foi traduzido pela trajetória dos preços em 12 meses. De um lado, itens mais consumidos em casa, com destaque para alimentos, foram as maiores pressões. Do outro, setores que enfrentaram restrições ao seu funcionamento não conseguiram reajustar seus preços e, em muitos casos, até registraram deflação.
As maiores quedas em 2020 ocorreram nos preços de passagens aéreas (-17,15%), hospedagem (-8,07%), seguro de veículo (-7,91%), mudança (-7%), transporte por aplicativo (-5,77%) e cinema, teatro e concertos (-1,68%). “De todos os itens que tiveram deflação no ano, 22% são de serviços”, nota Leal. “Apesar do número forte de novembro [alta de 2,6% sobre outubro], o ano deve fechar com queda perto de 7% do volume prestado de serviços”, comentou.
“A pandemia responde pela maior parte da variação baixa dos serviços em 2020”, aponta André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Braz observa que outros preços afetados pelo isolamento social perderam fôlego, como empregada doméstica, que desacelerou de 3,71% para 1,76% entre 2019 e o ano passado, e cursos regulares, que subiram 1,13% em 2020, ante 4,97% no ano anterior.
No último trimestre do ano, porém, os serviços mostraram tendência de alta, ao subirem 0,55% em outubro, 0,39% em novembro e 0,83% em dezembro. Para o economista da FGV, esse movimento já era esperado, em linha com a relativa reabertura dos estabelecimentos e o aumento na circulação das pessoas.
A tendência é que essa aceleração continue nos próximos meses, diz Braz, à medida que a economia se aqueça. Além disso, acrescenta, o setor também será impactado pela pressão de custos recente. “No ano passado 60% da inflação veio de alimentos, o que pressiona os custos dos restaurantes. A bandeira tarifária vermelha em dezembro também elevou os custos de vários prestadores de serviços”, acrescenta ele, que também destaca o aumento de matérias-primas.
Para retirar a influência da sazonalidade mais pressionada de fim de ano, o economista-chefe da Novus Capital, Tomás Goulart, prefere analisar como se comportou a inflação de serviços na ponta com o cálculo de uma média móvel trimestral. Na medida anualizada e dessazonalizada pela Novus, os serviços aumentaram 5,6% em dezembro, ante 4,2% um mês antes.
Goulart ressalta que o avanço ocorreu tanto nos serviços que mais dependem de aglomeração, grupo que ele chama de serviços sensíveis à covid, quanto naqueles que não têm suas atividades atingidas pela pandemia: o primeiro grupo acelerou de 6,6% para 7,6% entre novembro e dezembro, e o segundo, de 3,7% para 4,2%. A desagregação foi feita com base em estudo do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) de San Francisco.
“Os agentes econômicos estavam em dúvida sobre em que ritmo essa normalização dos preços iria acontecer. A reação foi rápida”, avalia Goulart, para quem os serviços terão alta de 3,5% em 2021, um pouco acima do previsto para o IPCA, que deve ficar em 3,3%. “É uma pressão, mas que não levará a inflação a um patamar acima da meta.”
Braz, do Ibre/FGV, lembra que, apesar da retomada da economia, há outros fatores que contribuem para que a inflação de serviços fique em nível ainda comportado, como a retirada do auxílio emergencial e uma taxa de desemprego elevada. “A inflação de serviços deve ir para a meta [de 3,75% para 2021]. Ela não vai virar uma preocupação, nem um desafio maior para a inflação.”
Fonte: Portal Valor Econômico
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Responsável por cerca de 35% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o conjunto que reúne itens como cabeleireiro, aluguel e empregada doméstica chegou a avançar 9% em 2011. À época, o segmento se beneficiava de uma economia ainda aquecida, com expansão da renda e da classe média, que começou a dedicar maior parte do orçamento para gastos como serviços pessoais e lazer.
Nos anos seguintes, a inflação de serviços se manteve em patamar elevado, rodando acima de 8% até 2015, quando a economia já estava em recessão. A partir de então, houve uma lenta trajetória de desaceleração, que culminou com alta de 3,5% em 2019. Segundo especialistas, este deve ser “o novo normal” para a variação dos preços no setor, que tende a voltar para nível mais perto da meta de 3,75% em 2021, refletindo a reabertura gradual das atividades e o processo de vacinação.
Economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otávio de Souza Leal afirma que o comportamento do consumidor ao longo da pandemia foi traduzido pela trajetória dos preços em 12 meses. De um lado, itens mais consumidos em casa, com destaque para alimentos, foram as maiores pressões. Do outro, setores que enfrentaram restrições ao seu funcionamento não conseguiram reajustar seus preços e, em muitos casos, até registraram deflação.
As maiores quedas em 2020 ocorreram nos preços de passagens aéreas (-17,15%), hospedagem (-8,07%), seguro de veículo (-7,91%), mudança (-7%), transporte por aplicativo (-5,77%) e cinema, teatro e concertos (-1,68%). “De todos os itens que tiveram deflação no ano, 22% são de serviços”, nota Leal. “Apesar do número forte de novembro [alta de 2,6% sobre outubro], o ano deve fechar com queda perto de 7% do volume prestado de serviços”, comentou.
“A pandemia responde pela maior parte da variação baixa dos serviços em 2020”, aponta André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Braz observa que outros preços afetados pelo isolamento social perderam fôlego, como empregada doméstica, que desacelerou de 3,71% para 1,76% entre 2019 e o ano passado, e cursos regulares, que subiram 1,13% em 2020, ante 4,97% no ano anterior.
No último trimestre do ano, porém, os serviços mostraram tendência de alta, ao subirem 0,55% em outubro, 0,39% em novembro e 0,83% em dezembro. Para o economista da FGV, esse movimento já era esperado, em linha com a relativa reabertura dos estabelecimentos e o aumento na circulação das pessoas.
A tendência é que essa aceleração continue nos próximos meses, diz Braz, à medida que a economia se aqueça. Além disso, acrescenta, o setor também será impactado pela pressão de custos recente. “No ano passado 60% da inflação veio de alimentos, o que pressiona os custos dos restaurantes. A bandeira tarifária vermelha em dezembro também elevou os custos de vários prestadores de serviços”, acrescenta ele, que também destaca o aumento de matérias-primas.
Para retirar a influência da sazonalidade mais pressionada de fim de ano, o economista-chefe da Novus Capital, Tomás Goulart, prefere analisar como se comportou a inflação de serviços na ponta com o cálculo de uma média móvel trimestral. Na medida anualizada e dessazonalizada pela Novus, os serviços aumentaram 5,6% em dezembro, ante 4,2% um mês antes.
Goulart ressalta que o avanço ocorreu tanto nos serviços que mais dependem de aglomeração, grupo que ele chama de serviços sensíveis à covid, quanto naqueles que não têm suas atividades atingidas pela pandemia: o primeiro grupo acelerou de 6,6% para 7,6% entre novembro e dezembro, e o segundo, de 3,7% para 4,2%. A desagregação foi feita com base em estudo do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) de San Francisco.
“Os agentes econômicos estavam em dúvida sobre em que ritmo essa normalização dos preços iria acontecer. A reação foi rápida”, avalia Goulart, para quem os serviços terão alta de 3,5% em 2021, um pouco acima do previsto para o IPCA, que deve ficar em 3,3%. “É uma pressão, mas que não levará a inflação a um patamar acima da meta.”
Braz, do Ibre/FGV, lembra que, apesar da retomada da economia, há outros fatores que contribuem para que a inflação de serviços fique em nível ainda comportado, como a retirada do auxílio emergencial e uma taxa de desemprego elevada. “A inflação de serviços deve ir para a meta [de 3,75% para 2021]. Ela não vai virar uma preocupação, nem um desafio maior para a inflação.”
Fonte: Portal Valor Econômico
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